A Bíblia em “Fatias”

Publicado em: 15 de novembro de 2020

Categorias: Estudos de Quinta Feira

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O maniqueísmo, fundado no terceiro século da era cristã por um persa chamado Manes ou Maniqueu, foi uma filosofia religiosa sincrética, isto é, que fundiu, num só, elementos do zoroastrismo, hinduísmo, budismo, judaísmo e cristianismo. Também foi dualística, pois dividia o mundo entre Bom, ou Deus, e Mau, ou o Diabo, bem como apregoava a matéria como intrinsecamente má, enquanto o espírito, intrinsecamente bom.

Dois séculos mais adiante, Agostinho, no seu livro “O Dom da Perseverança”, critica ferrenhamente os maniqueus “os quais não reconhecem nenhuma autoridade nas Escrituras do Antigo Testamento, mas aceitam as do Novo com o privilégio, ou melhor, o sacrilégio, de aproveitar o que querem e rejeitar o que não querem”.

Chama a atenção esta última frase em destaque. Ela diz respeito a pessoas que, por ideologia, selecionavam no texto bíblico o que lhes convinha como aceitável, que referendava seu sincretismo e dualismo, rejeitando o restante.

Quando vamos para a Confissão de Fé de Westminster, símbolo de fé da Igreja Presbiteriana, vemos que ali a Bíblia é colocada como livro sagrado aceito pela fé em sua integralidade como Palavra de Deus, única regra de fé e prática. E para não deixar dúvidas, a Confissão passa a nomear os livros que compõe a Bíblia, o chamado cânon, composto por 39 livros no Antigo Testamento e 27 no Novo, perfazendo 66 no total.

Como cristãos presbiterianos confessionais, nossa fé, portanto, é na totalidade das Escrituras, nos seus 66 livros, e na totalidade do conteúdo destes livros.

É um “sacrilégio”, como disse Agostinho, selecionar livros, frases ou palavras da Bíblia, para tomar para si somente aquelas que mais nos agradariam, mas recusando ouvir ou praticar outras que não nos seriam convenientes.

Vivemos num tempo de muito relativismo e subjetivismo. Precisamos tomar cuidado para, contaminados por certas ideologias, não buscar apoio pecaminoso em coisas humanas para desprezar na Palavra de Deus exortações e mandamentos que mexam com nossos erros e pecados, com fins a manter uma vida que desagrada a Deus sem peso na consciência.

A Bíblia, em sua totalidade de livros, versículos, frases e palavras, é a Palavra de Deus, expressa a sua vontade, independente do que alguém considere ser do seu agrado ou não.

Ouça tudo o que Deus tem a lhe dizer pelas Escrituras, sem rejeitar nem sequer um til do que nela está.

“— Não pensem que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, mas para cumprir. Porque em verdade lhes digo: até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra. Aquele, pois, que desrespeitar um destes mandamentos, ainda que dos menores, e ensinar os outros a fazer o mesmo, será considerado mínimo no Reino dos Céus; aquele, porém, que os observar e ensinar, esse será considerado grande no Reino dos Céus. Porque eu afirmo que, se a justiça de vocês não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrarão no Reino dos Céus” (Mt 5.17-20).

Podemos pensar ainda na maneira como estudamos a Bíblia. Há aquela “leitura devocional” de textos selecionados, em geral, para fortalecer mais nosso ânimo e autoestima. Tem seu valor, mas é insuficiente para quem quer crescer na graça e no conhecimento de Cristo, pois, para isso, o crente precisa ler a Bíblia em sua totalidade, tirar lições de toda ela, e desafiar-se a obedecer e praticar tudo o que ela ensina para a vida cristã. Neste sentido, a leitura mais proveitosa da Bíblia para o crescimento do conhecimento espiritual não está nas mini postagens seletivas das redes sociais, mas na inteireza do conteúdo bíblico, por um estudo do início ao fim das Escrituras.