O Retrato da Dor de um Palhaço

Publicado em: 19 de outubro de 2019

Categorias: Destaques, Devocionais

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“Coringa” é o personagem interpretado magistralmente por Joaquim Phoenix, que no filme do mesmo nome se chama Arthur Fleck. Para quem é fã de super heróis como eu, o filme “Coringa” deixa vários tipos de impressões.  Há aqueles que acharam perda de tempo tirar duas horas para assistir “Coringa”. Há aqueles que saíram refletindo sobre a película. O segundo caso é o meu. Após sair do cinema fui acometido por um misto de horror e compaixão, o que me fez refletir bastante a respeito do filme. “Coringa” nos traz um retrato fiel da degradação da ser humano e mostra como a sociedade é capaz de se alegrar com a dor do próximo.

Arthur possui problemas mentais e um distúrbio que faz com que o mesmo produza uma risada agonizante e involuntária, quase sempre feita de tristeza. Logo no início do filme, vemos ele rindo longamente até irromper em lágrimas frente à sua psicóloga. Ela espera pacientemente a crise passar até continuar a conversa. Arthur trabalha como palhaço, mas é infeliz. Vive com a mãe que também possui transtornos psicológicos. Ganha miseravelmente e é alvo de bullying por parte de colegas de trabalho e apanha de pessoas nas ruas.

É chamado de esquisito por muitos. Tem o sonho de ser comediante, mas invariavelmente não vai bem quando sobe ao palco. Num destes momentos novamente tem acessos de risos e sua apresentação cai por terra trazendo-lhe o sentimento de tristeza e humilhação. Gothan City é apresentada na película como o retrato do caos. Suja, feia e infestada de ratos, também apresenta veículos e muros pichados e ruas tomadas por lixo e violência, Gothan é a mostra da ineficiência de um governo que é incapaz de cuidar de pessoas com transtornos psicológicos e que se aproveita das mazelas da população. 

Curiosamente, Thomas Waine, candidato à prefeito de Gothan City e pai de Bruce Waine, é retratado como o político aproveitador e ineficiente que usufrui do sistema falido. Numa das cenas, Arthur Fleck presencia o assédio de três rapazes a uma garota no transporte público. Ele ri compulsivamente culminando no espancamento do mesmo pelos três rapazes. O episódio foi a deixa para que Arthur, mas tarde o Coringa, iniciasse seus atos violentos, vingando-se daqueles que o humilharam. “Coringa” é o retrato de como os seres humanos muitas vezes são capazes de olhar para a miséria e dramas dos homens com apatia e indiferença. É o retrato de perigo de fazer da humilhação e dor do próximo o nosso prazer.

Quantos de nós já humilhamos colegas de escola, trabalho, faculdade, vizinhos, etc, e sentimos alegria nisto? Em alguns momentos a plateia fica dividida. Torcer para o Coringa eliminar seus detratores ou não? Como cristão é preciso reafirmar que a vingança não é o melhor caminho. O filme mostra claramente que o Coringa é um personagem que aos poucos vai se desestabilizando mentalmente. Duas coisas devem ser ressaltadas: 1) O perigo de usar o abandono e o descaso social para ferir ao próximo. É preciso lembrar que nossa justiça é falha (Isaías 64.6) e que a vingança pertence a Deus (Hebreus 10.30); 2) Fazer de um personagem atormentando um herói da anarquia. É preciso orar e lutar pela justiça social com as orientações dadas por Deus.

Vale lembrar que toda a autoridade é serva de Deus e é Ele que institui e destitui governantes (Romanos 13.1-7). Não foi assim com o poderoso Egito? Não foi assim com a Babilônia? Com a Assíria? Com os Gregos? Com os Romanos? E com todos os reinos que se voltaram contra Deus?  O “Coringa” é o triste retrato da dor de um palhaço, mas também é um alerta para que não usemos da vingança para com aqueles que nos trazem antipatia.